22 de jul de 2009

Discurso de Oradora – Turma Profª. Drª. Daniela Cisneiros


Boa noite. Antes de tudo gostaria de agradecer, em nome das formandas, a presença de todos os que estão aqui. Alguns vieram de longe, para presenciar este rito de passagem de um ‘mundo estudante’ para um ‘mundo profissional’, resultado de um percurso extenso, ao longo da graduação em quase cinco anos. Agora (finalmente) podemos ser chamadas de Arqueólogas. Fato que não seria possível sem a instrução dedicada de nossos queridos professores, e o apoio de nossos familiares e amigos que nos acompanharam nessa trajetória.

Entramos na primeira turma de graduação em Bacharelado de Arqueologia em uma Universidade Federal do Brasil. Universidade esta, que estava, começando e ainda está dando seus primeiros passos, junto com a gente. Uma Universidade diferente. Pioneira em vários aspectos: foi criada para atender o semi-árido nordestino, é a primeira que atua em três estados; e que não está sediada nas capitais, porque, como costuma dizer a Professora Guidon, "um país só pode ser grande, quando puder permitir desenvolvimento nas suas capitais e seus interiores”. Fizemos nossa história, parte da história da primeira turma desse curso de Bacharelado em Arqueologia e Preservação Patrimonial, parte da história da cidade de São Raimundo Nonato, e da Universidade Federal do Vale do São Francisco, a UNIVASF, que ajudamos a construir.

A construção de um curso como esse, que até esse ano era filho único do Campus Serra da Capivara, perpassa pela competência do Corpo Docente, o comprometimento dos estudantes, a eficiência dos funcionários e o apoio de distintas representações da sociedade, como a Fundação Museu do Homem Americano, que foi e é crucial no processo de instalação e desenvolvimento do curso; bem como a Câmara de Deputados, de Vereadores e a Prefeitura. Mas principalmente, o acolhimento, com o qual, as pessoas de São Raimundo Nonato receberam a nós, que viemos de fora.

Nossa construção pessoal, como profissionais, devemos em grande parte aos Professores do Curso, aos quais apresentamos nossos Parabéns e Muito Obrigada. Parabéns por conseguirem construir um curso de bases teóricas sólidas, que amplia os horizontes e nos oferece a ciência Arqueológica como um vasto leque de possibilidades interpretativas, com grande capacidade de formar consciências. Obrigada por estarem aqui e possibilitarem essa convivência enriquecedora e única que conseguimos atingir, que chegou, em algumas situações, a ultrapassar a fronteira professor/aluno, superando todas as discordâncias (que não foram poucas), e trabalhando juntos na melhoria e consolidação do curso.

Mas, se conseguimos concluir esse curso, foi devido ao apoio de nossos pais e família, que nos permitiram, quando ainda éramos novas demais, deixar nossas casas, e ir para uma cidade, até então desconhecida, perseguir um sonho. Ou pais que observaram suas filhas dobrarem o tempo para conseguir dar conta de mais de uma faculdade e de tantos empregos. Em ambos os casos eles estiveram por perto, nos apoiando em cada decisão, enxugando lágrimas, ouvindo risos. Acompanhando todo o processo de (trans)formação de suas meninas, em arqueólogas. Um processo difícil de amadurecimento. Mas um processo apaixonante, pela própria ciência arqueológica, pela infinidade de possibilidades de descobertas que nos espera na próxima decapagem, e da importância da menor descoberta para recontar parte da historia da qual somos herdeiras. Hoje, arqueologia não é apenas um sonho, mas uma realidade coletiva, que dividimos com nossos pais, irmãos, tios, primos, avós, enfim... Com toda a nossa família.

Também foi importante, durante todo esse tempo, o convívio com nossos colegas da Turma A1, a tão comentada 'Turma das Estrelas', nossos colegas que já terminaram o curso e os que ainda estão por terminar. A convivência, por mais de um ano solitária, foi importante para nossa maturação e a saída do casulo do ensino médio. Discutimos muito, mas também fizemos e consolidamos amizades verdadeiras e leais. Também vale ressaltar a convivência com os alunos da Turma A2, nossos primeiros calouros, parceiros importantes na hora das discussões sérias e na hora das brincadeiras. Com o passar dos anos mais turmas foram entrando, o curso foi crescendo e se enriquecendo de pessoas com talentos próprios, jeitos próprios, nos ensinando a conviver na diferença da melhor forma possível: obrigada aos alunos das turmas A3, A4 e A5.

Vale ressaltar que somos Arqueológas. Concluímos esse curso, com um fato curioso: somos uma turma apenas de mulheres, sete mulheres, estamos desfalcadas porque, infelizmente, Ilca não pôde participar desta cerimônia. Ainda em 2004, quando da inscrição no vestibular, vislumbradas pelo mito do Indiana Jones, acreditamos que seriamos a minoria no curso. Qual foi a nossa surpresa quando percebemos que nós mulheres éramos maioria. Aliás, nessa época ainda éramos meninas, salvo algumas ressalvas.

Em um mundo predominantemente machista, onde em algumas ocasiões as mulheres ainda hoje são descriminadas no campo de trabalho, tivemos a honra e o privilégio de iniciarmos nossa carreira acadêmica ao lado de grandes mulheres. Mulheres que fizeram história na ciência arqueológica, como a Professora Gabriela Martin, aqui representada pelo Professor Demétrio Mutzenberg, cujo livro é referência para a arqueologia do nordeste. Também podemos falar da Professora Anne-Marie Pessis, aqui representada pela Professora Daniela Cisneiros, suas pesquisas são referência na metodologia de análise das pinturas rupestres. A própria Professora Daniela Cisneiros, que é para nós, um exemplo de competência e comprometimento. A Professora Fátima Barbosa, que nunca deixou de nos apoiar e abrir nossos olhos.

E, principalmente, a Professora Niède Guidon, que iniciou a quase quarenta anos atrás, as pesquisas nessa região, que hoje é conhecida internacionalmente como Parque Nacional Serra da Capivara. Pesquisas essas que possibilitaram, entre outras coisas, a instalação do curso aqui e a nossa convivência com essa pesquisadora que é um modelo de coragem, força, dedicação e sabedoria. Tivemos a honra de ter sido suas alunas, o que possibilitou o desenvolvimento e aperfeiçoamento do olhar arqueológico e um grande aprendizado. Obrigada professora por ter aberto as portas da Fundação Museu do Homem Americano e do Parque Nacional Serra da Capivara, patrimônio da humanidade, reconhecido pela UNESCO.

Além de arqueólogas, temos uma responsabilidade direta com esse e todos os Patrimônios, de preservá-los. A arqueologia nos ensina, em primeiro lugar, a respeitar as diferenças; a respeitar as culturas, os povos, as pessoas, que vieram antes da gente. Mas acima de tudo, a arqueologia nos ensina que somos um resultado de vários processos e que procurar entender nossa história, é o primeiro passo para pensarmos num futuro mais justo.


Tainã Moura Alcântara