16 de jun de 2011

O São João de Bonfim - Por Jairo Sá

GALINHOU, PUYEHUE!! SÓ TINHA ESSA!!!

“Praias, paixões fevereiras, não viram o que junhos de fumaça e frio.”
Caetano Veloso in “Jenipapo Absoluto”


O primeiro São João em Bonfim a gente nunca esquece. O meu foi em 1986 e, de lá para cá, jamais perdi um. Este será o vigésimo sexto.

E olhe que tinha tudo para dar errado. Na tarde daquele 23 de junho o escrete brasileiro, no México, palco da conquista do Tri em 1970, iniciou a promissora carreira de freguês da França. Entretanto, ao contrário de 1988 e 2006, nós merecíamos a vitória. Num jogo em que o personagem criado pelo dramaturgo tricolor Nelson Rodrigues, o Sobrenatural de Almeida (ou melhor, Monsieur Surnaturel du Lefévre) fez de tudo em campo, fomos eliminados nos pênaltis.

Naquele finalzinho de tarde a animação junina esmaeceu-se em todo o Nordeste brasileiro, menos em Bonfim. Ao cair da noite de São João, maravilhado, num cenário espetacular, eu tive todos os meus sentidos aguçados.  Num átimo, a cidade se iluminou e a temperatura elevou-se com o incender das fogueiras.

O som do arrojo das espadas, que já conhecia de Cruz dos Almas, adquiriu, naquele contexto, um significado totalmente diferente, mágico. E inesquecível. Tudo aquilo acontecendo sob uma estonteante lua cheia a boiar no céu, “imensa e amarela”. Aquela noite me deu a certeza de que a vibração do São João bonfinense é mais que um patrimônio imaterial de um povo. É material mesmo: a alegria é densa, palpável, tangível, dá pra “pegar com a mão”.

À época, já se iam longe as noites de São João de minha infância e o Carnaval. Ah! o Carnaval!! Já não era mais a festa da confraternização, criatividade e espontaneidade do interior. Também a Praça do Poeta deixara de ser o palco do frevo de novos e velhos baianos. Os babantes decibéis de imbecis Béis de bargantes barbas já explodiam na Avenida privatizada.

Por tudo dito até agora, jamais entendi o excêntrico costume de alguns bonfinenses nativos de, em pleno São João , partirem para o exílio em outras terras, outros ares.

Mas a Maria José Guirra, neste ano, abusou. Cismou de passar o São João na Argentina.  Na mesa, vinho em vez de licor, no salão, também esfumaçado, os acordes de um tango substituem o forró. Ao invés da sanfona do Cicinho, o bandoneón do Piazzola. Nada de bode na brasa, só boi nos ares. Sai Neymar entra Messi.

Mas, tanta heresia, não havia de ser impunemente. Maria se esqueceu que São João também é Xangô Menino, o orixá da Justiça e o senhor do fogo, da pedra. E vulcão o que é, senão fogo e pedra? Pois bem, com sua espada de guerreiro, Xangô acendeu o adormecido Vulcão Puyehue, na fronteira do Chile com a Argentina.

Inativo desde 1960, o vulcão, com sua forma cônica tal qual o Monte Tabor, escureceu todo o Cone Sul. Primeiro foram “fagulhas, pontas de agulhas”. Depois os gases, as cinzas e a chuva de areia. O fato é que os céus da Argentina, neste São João, não estão para Brigadeiro. Estão mais para Cabo da Aeronáutica. Ou seja, vai ser complicado Maria voar para a terra de Borges, Maradona e Gardel.

Não aconselho a Maria recorrer à típica provocação dos espadeiros bonfinenses: “Galinhou, Prexéu!! Só tinha essa!!!” Neste 13 de junho de 2011, noite de Santo Antônio, aliás, também Xangô, só que adulto, acabo de saber que acenderam outro vulcão na Eritréia.

Tudo bem, fica no Hemisfério Norte. Mas todo cuidado é pouco: Zezé, para o bem do São João bonfinense, del pueblo argentino e da própria humanidade, desiste dessa viagem!!!

Jairo Sá
Salvador, 13 de junho de 2011.

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