3 de jun de 2008

"Absolutamente Admirável"



Sempre admirei o trabalho de Chico Buarque, um mestre nas letras e nas melodias. Ouço muito suas músicas e mesmo as que não são de minha preferência , curto decifra-las (tento) e fico boquiaberta com a capacidade singular com a qual Chico junta as palavras.

Seus Romances, nunca tinha lido. Eles causavam em mim, já de antemão, um misto de ansiedade, curiosidade e medo. Me sentia ansiosa por ter nas mãos várias páginas nas quais, com certeza, cada informação seria colocada no lugar exato para que proporcionasse a interpretação mais adequada, onde os fatos seriam contados de forma tal que nenhum outro autor seria capaz de faze-lo. Curiosa para mergulhar num mundo novo e notável, viajando a cada letra. Mas sentia medo de não ser capaz de entender uma só linha do que tinha sido escrito em quase duzentas páginas pelo mesmo Chico do qual me julgava conhecedora de algumas canções, temia que esse meu “não-entendimento” terminasse por me afastar daquele que é o meu favorito dos escritores.

Por fim, respirei fundo e peguei emprestado, com meu padrinho [que, assim como eu (ou mais, possivelmente) é grande fã de Chico], o mais recente de seus romances, Budapeste, 2ª Edição e 2ª reimpressão, que traz a capa mostarda com letras pretas e brancas, publicado no ano de 2003 pela Companhia das Letras.

Demorei-me, um pouco, nos comentários expostos na orelha do livro, destes o que me chamou mais a atenção foi o de Caetano Velozo que dizia ser o livro de Chico “um labirinto de espelhos que afinal se resolve, não na trama, mas nas palavras, como os poemas”, não imaginava o que ele queria dizer, mas me perguntei como um labirinto de idéias poderia se solucionar nas palavras e não na trama, “como os poemas”...

Sei que para escrever um poema o autor goza de um privilégio chamado ‘licença poética’. Segundo esse o poeta pode escrever da maneira que imaginar ser a melhor, sem se prender a regras gramaticais, literárias ou de construção textual. Supus que seria um livro recheado de mistérios poéticos e me apressei para começar a leitura efetivamente: “Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira” (Buarque, 2003: pg. 5).

Vivi a história de José Costa por menos de 24hs. Um livro inusitado, que prende a atenção até a ultima linha. Uma história desconstruida e reconstruída várias vezes que nos apresenta um pouco da magia da “única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita” (Buarque, 2003: pq. 6) e da nossa também (Guanabara, Adstringência, Copacabana...). A história anônima de um homem incomum, como nós todos somos.

Agora eu poderia entender as palavras de Caetano, a grandeza do livro de Chico não estava em seu final feliz, muito menos nas passagens reais. Estava na imaginação do eu-lírico de uma prosa que se resolve nas palavras, não precisava estar tudo bem, bastava ele dizer que assim era, como acontece nos poemas. Chico deixa com esse livro um questionamento de até onde vai a separação de prosa e poesia, se é que ela existe de fato.

Chico, em Budapeste, não me decepcionou (e jamais poderia), ao contrário, fiquei ainda mais encantada com a forma intensa e simples que escreve suas histórias. Uma dica minha de leitura para quem gosta de escrita direta e histórias intrigantes. Um livro de uma vida “absolutamente admirável”.

Tainã Alcântara




Comentários:


[Caio Tiago]
Tai, até mesmo pra resenhar teus textos encantam. Deu até vontade de ler ;). Leia "A Ópera do Malandro", aquilo que é Chico (é uma peça teatral).

12/01/2007 00:02

RESPOSTA:
depois dessa experiencia com budapeste, eu quero mais eh chico! vou ler sim!! bjus


[Thiale Moura]
Chico eh perfeito em tudo

12/01/2007 00:32

RESPOSTA:
concordamos nisso plenamente!


[carol ]
Se eu ja queria ler agora quero mais ainda. Me da de natal ai vai vai vai pleaseee!! bj

12/01/2007 00:40

RESPOSTA:
eu nem tenho... s for comprar eh pra mim! lógico!! kkkkkkkkkkkkkkkkk


[Waldísio Araujo]
. Linda Tainã, Para mim, esse livro de Chico é uma das mais belas obras da história da literatura brasileira de todos os tempos. A forma como ele explora as dualidades que parecem povoar o mundo (Buda/peste é uma cidade dupla, como um dia talvez o será Jua/lina), o eu (Jose Costa / Chico Buarque) e o conhecimento (Ficção / Realidade) é magistral e só não encanta a críticos insensíveis ou sem cultura geral mesmo. Está em jogo no livro um problema filosófico que não conseguimos responder: estamos nós, irremediavelmente, entre a ignorância e a sabedoria, entre o amor e o ódio, entre a vida e a morte? Ou essas dualidades não existem no mundo, mas apenas em nossos cérebros? E o artista, que se coloca entre o verdadeiro e o falso, não seria o melhor juiz disso tudo? Chico Buarque, o escritor, é o homem certo para dizê-lo, ele que sempre esteve entre o pobre e o rico, o erudito e o popular, o homem e a mulher. Leiamo-lo, então. Beijos. .





Talvez a minha preferida das Essências da Menina de Fita no Cabelo!



2 comentários:

Ruizito disse...

eu queroo!!

sandra disse...

Tainã, admiro o Chico escritor e principalmente compositor e cantor.Ainda não li BUDAPESTE, mas como voc comentou é mais uma grande obra do nosso poeta dos olhos verdes.