7 de abr de 2008

Sublime Submerção


Eu tenho medo
e sou completamente fascinada pelo espetáculo
tudo começa no primeiro encontro
ou eu vejo, ou eu escuto, ou eu sinto
A novidade está presente e perceptivel

e parece prender todos os meus sentindos

Até que decido adquirir um passe real para um novo mundo

E lá estou eu: toda arrumada, reluzindo de deslumbramento
ansiosa para mergulhar no turbilhão de sentimentos

Então a luz se apaga
E o maestro conduzirá a noite, como à uma orquestra

apresenta os personagens, e o show começa:
malabaristas ateiam fogo ao palco
inflamáveis, inqueimáveis
Trapezistas desafiam a lei da gravidade
em danças suaves e intensas em pleno ar
Libertam-se e agarram-se novamente

Voam, em êxtase

A contorcionista brilha sozinha sob a luz azul

com seus musculos ajustáveis e seus ossos de borracha

Faz tudo parecer possível

O espetáculo segue, me absorvendo
a música me embala
e nesse momento
já não tenho medo do globo da morte
e seria o alvo do atirador de facas

de vendas, segura!

com a maior certeza de que não existe nada mais intenso
nem sublime do que aquela total submerção

me sentindo completa, feliz
O circo encerra sua apresentação da noite

E volto pra casa flutuando
com a certeza de que o picadeiro seria meu lar,

meu amado e tranquilo lar

onde aquela sensação de estar completa não me deixaria nunca
e tenho então o melhor dos sonhos, na melhor das noites
No outro dia o circo ainda está na cidade
E repito o ritual , incessantemente
Em um ponto não me parece mais mágico

e quando volto pra casa não me sinto mais sublime
Só me vem a cabeça as palhaçadas sem graça e as mentiras,
tudo o que parecia espetacular era falso

Até que aquilo me incomoda, me magoa
os Trapezistas parecem não querer voar
e os malabaristas não ateiam mais fogo ao show
As inverdades se tornam insustentáveis
quando percebo que tudo o que eu tinha visto

só eu tinha visto!

Prometo a mim mesma não cair de novo nesse truque velho
nesse encantamento

não falo mais nisso
E permaneço firme na minha decisão.
Pelo menos até a chegada de um novo circo
.
Tainã Alcântara



"Me atirava do alto na certeza de que
alguém segurava minhas mãos,
não me deixando cair.
Era lindo mas eu morria de medo.
Tinha medo de tudo quase:
Cinema, Parque de Diversão, de Circo, Ciganos..(...)

Aquela gente encantada que chegava e seguia.
Era disso que eu tinha medo.
Do que não ficava pra sempre."

in Dadivosa

Composição: Ana Carolina, Adriana Calcanhoto e Neusa Pinheiro

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