13 de dez de 2007

Anita



É! Ela ainda queria sair dali. Talvez todas aquelas coisas a influenciassem demais. Tudo naquela cidade cheirava à raiva que ela tinha de estar naquelas "férias" forçadas no meio do mundo. Nada para fazer... nada diferente para ver. Fugia. Fugia sempre. Não era difícil encontrá-la na frente do computador, assistindo um filme, ou mergulhada em seus cadernos. Era isso que gostava mais. Mas não conseguia mais escrever. Parecia que o tédio e a revolta tinham sugado todo o potencial criativo dela. Definitivamente precisava sair dali. E tinha que ser rápido.
Planejara viajar no fim de semana, mas seu chefe não a liberou do trabalho, e toda previsão ainda parecia incerta. A atmosfera não favorecia devaneios conscientes, nem inconscientes. Suas histórias, suas personagens, seus sonhos, suas meninas. Todos estavam abandonados graças a essa exclusão involuntária do mundo. A unica inspiração que lhe sobrava era ela mesma. Num vestido verde musgo, sentada com as duas pernas sobre a cadeira, escrevendo coisas sobre ela mesma, num caderninho com cheiro de chocolate (e como gostava de chocalate). Sobre como gostava quando seu vizinho comprava eletrodomesticos que vinham empacotados naqueles sacos com bolhinhas de ar (ele sempre dava a ela, e ela adorava estourar). Sobre como construira imensos castelos de areia na infância. E Sobre as tempestades, como as temia e adorava ao mesmo tempo. Escrevia sobre si mesma. Numa ferocidade violenta, buscando desvendar aonde estava, e aonde tinha se perdido.
Não deveria estar ali, sabia disso, mas mesmo assim lhe parecia preciso. Talvez tenha algo haver com sua essência. A essência. Por tanto tempo ela procurou, muito, descontroladamente. Não. Não achou ainda. Mas parecia estar mais perto dessa vez. Só tinha certeza de uma coisa, àquela altura: Estava tudo Perto Demais.
"- Como é se enxergar através do espelho? Sua verdadeira alma fica lá, trancada no mundo refletido, enquanto uma outra parte de você se encarrega de sua vida. É perto demais. É como se reconhecer nos olhos de outra pessoa. É como se desvendassem todos os seus segredos e não tivesse mais aonde se esconder."
Perto demais. Essencialmente. É isso. Mas ela não sabe como resolver. É. Ela ainda queria sair dali (sabia disso). Definitivamente tinha que sair dali. E precisava ser rápido.


Tainã Alcântara


4 comentários:

Tulio disse...

Algumas das maiores revelações vêm nos momentos mais detestáveis

Caio Tiago disse...

Penso que você deveria resistir a essa vontade de se entregar e continuar escrevendo.
Isso te dá forças na tua luta contra teus dragões imaginários e faz você ir para longe dessa masmorra sem fim.
Escrevendo você encontra uma forma de lidar com teu tédio e viaja para onde quiser, mesmo que apenas por alguns instantes.

Tua essência está dentro de ti e você não precisa nem mesmo conhecê-la, como se olhasse a si mesma num espelho, para usá-la.
Você a usa... e continue escrevendo ;).

=*

Segredos disse...

Adorei o seu blog....
Você escreve muito bem!!
Feliz 2008

Victor disse...

agora sim , texto lido com a devida calma !!!